terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Amanhã ou Depois


Deixamos pra depois uma conversa amiga
Que fosse para o bem,
que fosse uma saí­da
Deixamos pra depois a troca de carinho
Deixamos que a rotina fosse nosso caminho
Deixamos pra depois a busca de abrigo
Deixamos de nos ver fazendo algum sentido
Amanhã ou depois, tanto faz se depois... For nunca mais...
Deixamos de sentir o que a gente sentia

Que trazia cor ao nosso dia a dia

Deixamos de dizer o que a gente dizia

Deixamos de levar em conta a alegria
Deixamos escapar por entre nossos dedos

A chance de manter unidas as nossas vidas...



sábado, 15 de novembro de 2008

Ares



Ares de força superior, condutor de carros, de elmo dourado, pujante de espírito, detentor de escudo, libertador de cidades, armado de bronze, de mão vigorosa, incansável, possante com a lança, muralha do Olimpo, Pai da Vitória, eficaz na guerra, aliado de Témis, soberano dos rebeldes, líder dos homens mais justos, detentor do ceptro da masculinidade, revolves o ciclo luminosono éter por meio das sete constelações, e aí, para a eternidade, os teus cavalos fogosos te sustentam sobre a terceira abóbada celeste. Ouve! Defensor dos mortais, dador da corajosa juventude! envia do alto uma suave luz brilhante, sobrea minha vida, e o poder de Ares, para que eu possa afastar a amarga maldade da minha cabeça, e vergar os enganosos impulsos na minha alma. Detém também a ira aguçada do meu coração, que me leva a avançar no gelado fragor da guerra. Mas tu, Ó bem-aventurado, dá-me a coragem para permanecer nas inofensivas leis da paz,fugindo da contenda dos malignos soldados de Kêr.

Hino homérico VIII

sábado, 27 de setembro de 2008

Escolha


Muito do teu sofrimento é por escolha sua. É a poção amarga com que o médico dentro de você cura o próprio doente...


"O amor é dinâmico. Jamais pode ser aprisionado; está vivo, livre, comovedor e sempre em movimento. O homem jamais pode pegar o amor do Pai e aprisioná-lo em seu coração.”

DOC 177, pág 1289
The Urantian Book

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A luz de cada um....



"Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados.
Nosso medo mais profundo é que somos poderosos além de qualquer medida.
É a nossa luz, não as nossas trevas, o que mais nos apavora.
Nós nos perguntamos:
Quem sou eu para ser Brilhante, Maravilhoso, Talentoso e Fabuloso?
Na realidade, quem é você para não ser?
Você é filho do Universo.
Se fazer pequeno não ajuda o mundo.
Não há iluminação em se encolher, para que os outros não se sintam inseguros
quando estão perto de você.
Nascemos para manifestar a glória do Universo que está dentro de nós.
Não está apenas em um de nós: está em todos nós.
E conforme deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente, damos às outras
pessoas permissão para fazer o mesmo.
E conforme nos libertamos do nosso medo, nossa presença, automaticamente, libera os outros."

(Nelson Mandela)

How can it feel, this wrong?

"Ohh, ninguém consegue ver?
Temos uma guerra para travar
Nunca achamos nosso caminho
Diferente ao que eles dizem
Como pode parecer tão errado?
Para esse momento
Como pode parecer tão errado?
Tempestade...na luz da manhã
Eu sinto
Não posso dizer mais
Congelada para mim mesma
Não tenho ninguém ao meu lado
E certamente isso não está certo!"
(. . .)


(Portishead-Roads)
http://br.youtube.com/watch?v=tDzwJieSxe0

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Sucesso


Todo mundo sabe compadecer o sofrimento de um amigo mas é preciso se ter uma alma realmente bonita para se apreciar o sucesso dele.
Oscar Wilde

Caleidoscópio





O primeiro impacto abriu o foguete em dois, de alto a baixo, como um gigantesco abridor-de-latas. Os homens foram cuspidos para o espaço como uma dúzia de coleantes peixinhos prateados. Dispersaram-se dentro de um mar de escuridão; e a nave, feita em milhões de pedaços, prosseguiu o seu caminho, qual enxame de meteoros à procura de um sol perdido.

— Bradley, Bradley, onde você está?

O som de vozes a chamar como crianças perdidas numa noite fria.

— Woode, Woode!

— Comandante.

— Hollis, Hollis, é o Stone.

— Stone, sou o Hollis. Onde é que você está?

— Sei lá! Como é que vou saber? Qual é o lado de cima? Estou caindo. Meu Deus, eu vou a cair.

Caiam. Como pedras por um poço abaixo. Espalharam-se como as pedras de um jogo num gigantesco arremesso. E agora, em vez de homens, havia apenas vozes – todo o tipo de vozes, exaltadas e despojadas de corpo, em graus variáveis de terror e resignação.

— Estamos nos afastando uns dos outros.

Era verdade. Hollis, a balançar, de pernas para o ar, sabia que era verdade. Sabia-o com uma vaga aceitação. Estavam a afastar-se e seguiam os seus caminhos separados e não havia nada que os pudesse reunir de novo. Estavam dentro das suas roupas espaciais herméticas, com tubos de vidro sobre os rostos pálidos, mas não tinham tido tempo de se equipar com as unidades de propulsão. Com elas, podiam ser como que pequenos salva-vidas no espaço, salvando-se e salvando outros, recolhendo-se e encontrando-se uns aos outros até formarem uma ilha de homens com um qualquer plano. Mas sem as unidades de propulsão presas aos ombros eram meteoros, inanimados, seguindo cada um um destino separado e irrevogável.

Passaram talvez dez minutos em que o primeiro terror se desvaneceu e deu lugar a uma calma metálica. O espaço começou a tecer aquelas vozes estranhas para um lado e para o outro num enorme tear negro, cruzando-se e recruzando-se, compondo um padrão acabado.

— Stone para Hollis. Quanto tempo mais é que poderemos conversar?

— Depende da velocidade a que estamos indo, você, para o seu caminho e eu para o meu.

— Uma hora, talvez.

— Sim, deve ser isso mais ou menos — disse Hollis absorto e calmo. — O que é que aconteceu? — perguntou Hollis um minuto depois.

— O foguete explodiu, só isso. É, os foguetes também explodem.

— Em que direção você vai?

— Dá a impressão de que vou embater na lua.

— Eu acho que vou em direção à Terra. De volta à velha Terra-mãe. A trinta mil quilômetros por hora. Vou queimar como um fósforo.

Hollis pensou naquilo com um estranho desprendimento. Tinha a sensação de que tinha sido despojado do seu corpo, e que o estava vendo cair através do espaço, tão objetivamente como aqueles primeiros flocos de neve num certo inverno há muito tempo.

Os outros estavam silenciosos a pensar no destino que os conduzira a isto, a cair, a cair, e que nada podiam fazer para mudar aquilo. Até o comandante estava calado, porque não havia ordem ou plano algum que pudesse pôr de novo as coisas no lugar.

— Oh, temos um longo, muito longo caminho a percorrer por aí abaixo — disse uma voz. — Eu não quero morrer, não quero morrer, é um longo caminho.

— Quem disse isso?

— Não sei.

— Acho que é o Stimson. É você Stimson?

— Que longo, tão longo caminho, e eu não estou gostando disto. Oh, meu Deus, não estou mesmo.

— Stimson, é o Hollis. Stimson, está ouvindo?

Uma pausa, enquanto continuavam a cair e a afastar-se cada vez mais uns dos outros.

— Stimson?

— Sim — respondeu ele finalmente.

— Stimson, tenha calma; estamos todos no mesmo barco.

— Eu não queria estar aqui. Queria ir para outro lugar qualquer.

— Há uma possibilidade de nos encontrarem.

— Têm de me encontrar, tem de ser — disse Stimson. — Eu não acredito, não acredito que isto esteja acontecendo.

— É um pesadelo — disse alguém.

— Cale-se. — disse Hollis.

— Venha aqui me calar — disse a mesma voz. Era Applegate. Riu tranquilamente, com a mesma objetividade. — Venha me calar.

Pela primeira vez, Hollis sentiu a sua incapacidade naquela situação. Apoderou-se dele uma enorme raiva, porque tudo o que ele queria naquele momento era poder fazer qualquer coisa com Applegate. Há muitos anos que ele lhe queria fazer qualquer coisa, e agora era tarde demais. Applegate não passava de uma voz.

Caindo, caindo.

Agora, como se só então se tivessem apercebido daquele horror, dois dos homens começaram a gritar. Como num pesadelo, Hollis viu um deles passar flutuando, muito perto, e a gritar, sempre a gritar.

— Pára com isso! — O homem estava quase ao alcance da mão, a gritar como um louco. E não se calava mais. E ia continuar a gritar por um milhão de quilômetros enquanto estivessem ao alcance do rádio, a perturbar todos e a não deixar que os outros falassem entre si.

Hollis estendeu o braço. Era melhor assim. Fez mais um esforço e conseguiu tocar no homem. Agarrou-o pelo tornozelo e puxou-se para cima ao longo do corpo até lhe alcançar a cabeça. O homem gritava e agarrou-se a ele freneticamente como um afogado. Os gritos enchiam todo o universo.

Assim como assim, pensou Hollis… A lua ou a Terra ou os meteoros acabarão por matá-lo, portanto, por que não?

Despedaçou-lhe o capacete de vidro com o punho de ferro. A gritaria cessou. Afastou o corpo com um empurrão e deixou-o seguir seu curso, a rodopiar, a cair.

A cair, a cair pelo espaço, Hollis e o resto dos homens continuavam a sua longa descida num vórtice de silêncio.

— Hollis, está aí?

Hollis não respondeu, mas sentiu o calor a subir-lhe à cara.

— É o Applegate outra vez.

— Está bem, Applegate.

— Vamos conversar. Não temos mais nada para fazer.

O comandante interveio:

— Chega. Temos de arranjar uma maneira de sair disto.

— Comandante, por que é que não cala essa boca? — disse Applegate.

— O quê?!

— O Senhor ouviu bem o que eu disse. Não venha exibir as suas divisas, o Senhor agora está a vinte mil quilômetros, não vamos nos iludir. Como diz o Stimson, temos um longo caminho a percorrer por aí abaixo.

— Ouça, Applegate!

— Deixe disso. Isto é um motim de um só homem. Não tenho absolutamente nada a perder. A sua nave não prestava, o Senhor era um mau comandante, e espero que o Senhor se rebente quando bater na lua.

— Pare com isso! É uma ordem!

— Continue, ordene outra vez — Applegate sorriu a vinte mil quilômetros de distância. O comandante ficou calado. Applegate continuou:

— Onde é que nós íamos, Hollis? Ah, já me lembro. Eu também não vou com a sua cara. E você sabe disso há muito tempo.

Hollis cerrou os punhos, impotente.

— Quero dizer uma coisa — disse Applegate — para lhe dar uma alegria: Fui eu que votei contra você na Rocket Company há cinco anos.

Um meteoro passou como um relâmpago. Hollis olhou para baixo e viu que o seu braço esquerdo se fora. O sangue jorrou. E de repente ficou sem ar dentro da roupa espacial. Tinha ar suficiente nos pulmões para dar a volta com o braço direito e rodar o botão à sua esquerda para apertar a junta e estancar a fuga. Aquilo tinha acontecido tão depressa que nem teve tempo para ficar surpreso. O ar dentro da roupa logo voltou ao normal, agora que a fuga fora estancada. E o sangue, que tão depressa começara a jorrar, estancou quando ele apertou o botão ainda mais até aquilo funcionar como torniquete.

Tudo isto aconteceu no meio de um terrível silêncio da sua parte. E os outros continuavam a tagarelar. O Lespere continuava a sua conversa sobre a mulher que tinha em Marte, e a outra que tinha em Vênus, e em Júpiter, e sobre o seu dinheiro, a vida que levara, as bebedeiras, o jogo, a sua felicidade. E falava, falava, enquanto todos eles continuavam a cair. Lespere recordava o passado, feliz, enquanto se precipitava na morte.

Tudo aquilo era tão estranho. O espaço, milhares de quilômetros de espaço, e aquelas vozes a vibrar no centro. Absolutamente ninguém à vista, só as trêmulas ondas do rádio a tentar despertar outros homens para a emoção.

— Está zangado, Hollis?

— Não — E realmente não estava. Estava de novo absorto, e já não era mais do que um objeto inerte, a cair para sempre em nenhures.

— Em toda a sua vida você sempre desejou chegar ao topo, Hollis. Você sempre quis saber o que aconteceu. Eu votei contra você antes mesmo de eu próprio ser excluído.

— Isso não interessa — disse Hollis. E era verdade. Aquilo era passado. Quando a vida se acaba, é como uma cintilação de um filme luminoso, um instante apenas na tela, todos os preconceitos e paixões condensados e iluminados por um momento no espaço, e antes de podermos exclamar "Olha, aquele foi um belo dia; aquele foi péssimo; ali está um tipo perverso; e ali um bom sujeito", já a película está reduzida a cinzas e a tela escurecida.

Desta margem exterior da vida, ao olhar para trás, apenas um remorso, que era só o remorso de querer continuar a viver. Será que todos os moribundos se sentem assim, como se nunca tivessem vivido? Será que a vida parecia tão curta, realmente pronta e acabada antes de termos tempo de respirar fundo? Será que ela era assim abrupta e impossível para todos, ou só para ele, aqui e agora, apenas com algumas horas para pensar e decidir?

Um dos outros homens, Lespere, estava falando:

— Bem, eu tive uma boa vida: uma mulher em Marte, outra em Vênus e outra em Júpiter. Todas tinham dinheiro e tratavam-me muito bem. Embebedava-me, e uma vez perdi vinte mil dólares num jogo.

"Mas agora você está aqui." – pensou Hollis – "Eu não tive nada disso. Quando vivia, tinha inveja de você, Lespere; quando tinha mais um dia pela frente, invejava-lhe as mulheres e a boa vida. As mulheres amedrontavam-me e vim para o espaço sempre a desejá-las e cheio de inveja por você as ter e por ter dinheiro e ser tão feliz quanto podia dessa sua maneira estouvada. Mas agora, aqui, caindo, com tudo acabado, já não tenho inveja, porque para você também tudo acabou, exatamente como para mim, e neste momento tudo isso é como se nunca tivesse existido." Hollis estendeu o pescoço para a frente e gritou pelo rádio:

— Acabou tudo, Lespere!

Silêncio.

— É como se nunca tivesse existido nada, Lespere.

— Quem é que está falando? — gaguejou Lespere.

— Sou eu, Hollis.

Estava sendo mesquinho. Sentia a mesquinhez, a mesquinhez sem sentido da morte. Applegate tinha-o magoado e agora ele queria magoar alguém. Applegate, o espaço tinham-no ferido.

— Agora é aqui que você está, Lespere. Acabou tudo. É como se nunca tivesse existido nada, não é?

— Não.

— Quando uma coisa acaba, é como se nunca tivesse existido. Em que é que a sua vida agora é melhor do que a minha? Só o presente é que conta. E o seu é melhor? É?

— É, é melhor!

—Porquê?

— Porque eu tenho os meus pensamentos, eu me recordo! — exclamou Lespere, de muito longe, indignado, apertando as suas recordações ao peito com ambas as mãos.

E ele tinha razão. Com uma sensação de água gelada a correr-lhe sobre a cabeça e sobre o corpo, Hollis sabia que ele tinha razão. Havia uma diferença entre recordações e sonhos. Ele só tinha tido sonhos sobre coisas que desejara fazer, enquanto que Lespere tinha recordações de coisas feitas e conseguidas. E esta constatação começou a despedaçá-lo com uma precisão lenta e palpitante.

— E de que lhe serve isso? — exclamou ele para Lespere. — Agora? Quando uma coisa acaba já não serve para nada. Você não está melhor do que eu.

— Eu estou descansado, tranqüilo — disse Lespere. — Já tive a minha cota. Não estou ficando mesquinho no fim, como você.

— Mesquinho? — Hollis remoeu aquela palavra. Tanto quanto podia se lembrar, nunca na sua vida fora mesquinho. Nunca se atrevera a ser mesquinho. Deve ter-se guardado todos estes anos para um momento como este. "Mesquinho". Empurrou a palavra para o inconsciente. Sentiu as lágrimas nos olhos e a rolarem pela cara. Alguém deve ter ouvido a sua voz entrecortada.

— Calma, Hollis.

Claro que tudo aquilo era ridículo. Há apenas um minuto fora ele a dar conselhos aos outros, a Stimson; sentira uma coragem que achara genuína, mas agora sabia que isso não passara de um estado de choque e da objetividade possível em tal situação. Agora tentava reunir uma vida inteira de emoções refreadas em um espaço de minutos.

— Eu sei como você se sente, Hollis — disse Lespere, agora a quarenta mil quilômetros de distância, o som da voz já enfraquecendo. — E não estou ofendido.

Mas nós não somos iguais? interrogava-se ele, Lespere e eu? Aqui e agora? Se uma coisa chega ao fim, está acabada, e de que serve? De qualquer maneira, nós sempre tínhamos de morrer. Mas ele sabia que estava a racionalizar, porque era como tentar fazer a distinção entre um homem vivo e um cadáver. Havia num uma centelha que não havia no outro – uma aura, um elemento misterioso.

Era isto o que se passava com Lespere e ele próprio; Lespere tinha tido uma vida boa, cheia, e isso fazia agora dele um homem diferente, e ele, Hollis, estivera muitos anos como morto. Tinham vindo encontrar a morte por caminhos diferentes e, com toda a probabilidade, se de fato havia tipos de morte diferentes, as suas mortes seriam diferentes como o dia da noite. A qualidade da morte, tal como a da vida, deve ser de uma variedade infinita, e se uma pessoa já morreu uma vez, então qual era o problema de morrer de uma vez por todas, como lhe estava acontecendo agora?

Foi uns segundos depois que ele descobriu que o pé direito tinha sido decepado. E aquilo quase o fez rir. O ar dentro da roupa foi-se de novo. Baixou-se rapidamente e viu o sangue; o meteorito tinha-lhe levado a carne e a roupa até ao tornozelo. Oh, a morte no espaço era engraçada. Cortava-nos pedaço por pedaço, como um carniceiro invisível. Apertou a válvula do joelho, a cabeça rodando, a dor, lutando por continuar consciente, e uma vez apertada a válvula, o sangue parou, o ar voltou. Ele endireitou-se e continuou a cair, porque isso era a única coisa que lhe restava fazer.

— Hollis?

Hollis abanou a cabeça sonolento, cansado de esperar a morte.

— É o Applegate outra vez — disse a voz.

— Sim.

— Tive tempo para pensar. Você tem razão. Isto não é bom. Estamos ficando maus. É uma péssima maneira de morrer. Estamos a destilar venenos. Está me ouvindo?

— Estou.

— Eu menti agora há pouco. Eu não votei contra você. Nem sei por que é que lhe disse isso. Acho que só queria magoar. Você parecia a pessoa indicada para eu magoar. Nós andávamos sempre em guerra. Acho que estou envelhecendo muito depressa e a arrepender-me muito depressa também. Acho que quando o ouvi sendo mesquinho, fiquei envergonhado. Não sei porquê, mas quero que saiba que eu também fui um idiota. Não há um pingo de verdade naquilo que eu lhe disse. Vá se lixar!

Hollis sentiu o coração bater outra vez. Dava-lhe a impressão de que estivera parado por uns cinco minutos, mas agora todos os seus membros começavam a ganhar cor e calor. O choque passara, e os sucessivos acessos de raiva e terror e solidão estavam passando. Sentia-se como um homem saindo de uma ducha, de manhã, pronto para o café da manhã e para enfrentar um novo dia.

— Obrigado Applegate.

— Não tem de quê. Anime-se, seu sacana.

— Hey — disse Stone.

— O que é? — chamou Hollis através do espaço, porque o Stone, entre todos eles, era um bom amigo.

— Entrei no meio de um enxame de meteoros, uns pequenos asteróides.

— Meteoros?

— Parece-me que é a constelação Myrmidone que passa por Marte em direção à Terra de cinco em cinco anos. Estou mesmo no meio. É como um enorme caleidoscópio. Vêem-se todos os tipos de cores, formas e tamanhos. Meu Deus, como isto é belo, todo este metal.

Silêncio.

— Estou a indo com eles — disse Stone. — Estão me levando junto. Diabos me levem — riu-se ele.

Hollis olhou, mas não viu nada. Viam-se apenas as enormes brumas cor de diamante e safira e esmeralda e as tintas aveludadas do espaço, com a voz de Deus a misturar-se entre os fogos de cristal. Havia algo de maravilhoso e de fantástico na imagem de Stone sendo arrastado no meio da constelação de meteoros e a passar por Marte em direção à Terra de cinco em cinco anos, a aparecer e a desaparecer da vista do planeta durante o próximo milhão de séculos, o Stone e a constelação Myrmidone a mudarem e a transformarem-se eternamente como as cores do caleidoscópio quando em criança virávamos o longo tubo para o sol e o fazíamos rodar.

— Adeus, Hollis — foi a voz de Stone, já muito fraca. — Adeus.

— Boa sorte — gritou Hollis através do espaço, a sessenta mil quilômetros de distância.

— Não brinque comigo — disse Stone, e silenciou.

Estrelas a toda a volta.

Agora as vozes começavam a enfraquecer, cada uma na sua trajetória, umas para Marte, outras para o espaço mais longínquo. E ele, Hollis... Olhou para baixo. Ele, logo ele, regressava à Terra sozinho.

— Adeus.

— Vai devagar.

— Adeus, Hollis — Era Applegate.

Aquelas despedidas todas. Aqueles curtos adeuses. E agora o grande cérebro desconjuntado estava a desintegrar-se. As componentes daquele cérebro que tão bem e tão eficientemente tinham trabalhado na caixa craniana da nave em vertiginosa corrida no espaço estavam a morrer uma a uma; o sentido da sua vida em conjunto estava a desfazer-se. E, tal como um corpo morre quando o cérebro deixa de funcionar, também o espírito da nave e todo o tempo que eles passaram juntos, tudo morrendo. Applegate já não era mais do que um simples dedo arrancado ao corpo-mãe, já não era ninguém que se pudesse desprezar ou contra quem se pudesse fazer alguma coisa. O cérebro explodiu e os seus fragmentos inanimados e inúteis ficaram dispersos. As vozes desvaneceram-se e agora todo o espaço estava silencioso. Hollis estava só, caindo.

Estavam todos sós. As suas vozes tinham morrido como ecos de palavras de Deus a vibrar nas profundezas estreladas. Ali, o comandante em direcção à Lua; ali, o Stone no meio da constelação de meteoros; ali, o Stimson; ali o Applegate a caminho de Plutão; ali o Smith, o Turner e o Underwood e todos os outros, os fragmentos do caleidoscópio que durante tanto tempo tinham constituído um padrão pensante, todos violentamente separados.

E eu? pensou Hollis. O que é que eu posso fazer? Poderei fazer alguma coisa para reparar uma terrível vida vazia? Se ao menos eu pudesse fazer algum bem para compensar a mesquinhez que andei a guardar todos estes anos e que nem sequer sabia que morava dentro de mim! Mas não há aqui mais ninguém, a não ser eu próprio, e como é que se pode fazer o bem estando sozinho? Não se pode. Amanhã à noite vou entrar na atmosfera da Terra.

Vou arder, pensou, e ficar reduzido a cinzas espalhadas por todas as terras dos continentes. Vou ser de alguma utilidade, pouca, mas cinzas são cinzas e sempre acrescentam alguma coisa à terra.

Descia vertiginosamente, como uma bala, como um seixo, como um peso de ferro, objetivo, sempre objetivo agora, nem triste nem feliz, nem coisa alguma, desejando apenas fazer algo de bom, agora que tudo estava acabado, algo de bom, de que só ele ficasse sabendo.

Quando eu entrar na atmosfera vou queimar como um meteorito.

— Será que alguém vai me ver? — perguntou.

O menino, naquela estradinha de terra no campo, olhou o céu e gritou:

— Olha, Mamãe, olha! Uma estrela cadente!

A branca estrela incandescente percorreu o céu do crepúsculo de Illinois.

— Pensa num desejo — disse a mãe. — Pensa num desejo.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Lua Adversa


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles
Antologia Poética-1979

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Decifra-te


E aquele que tiver coragem, que devore a si mesmo...

Amigos...


O amigo é a resposta aos teus desejos. Mas não o procures para matar o tempo! Procura-o sempre para as horas vivas. Porque ele deve preencher a tua necessidade, mas não o teu vazio.
Khalil Gibran

sábado, 10 de maio de 2008

Vórtice


E tudo o que resta são notas. Notas frias e embreagadas de suor. Aquele mau cheiro o acompanha sempre, parece que vem dele mesmo. Não há mais nada com o que brincar, não há mais nada que o faça rir. Ele destruiu todo as marcas, tudo o que fazia dele um amante, o meu amante. E quem irá ganhar essa guerra? Não há inimigos, não há mais deus, deuses, ou qualquer coisa para acreditar. Os velhos nômades que ele seguia não estão mais lá. Não há pegadas para seguir nem estrada para voltar. E o menino se perdeu no meio do caminho, o cheiro do horror dos dias passados não o deixa sentir, não o deixa respirar.
O guerreiro o chama, mas ele já não escuta mais.
Um vórtice de loucura, o poço, a saída, o cheiro das notas, o frio, a confusão, o horror...

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